Victor Lustig: o homem que vendeu a Torre Eiffel. Duas vezes.

Em meu trabalho como mentalista e hipnotista estudo muito uma arte chamada Engenharia Social, que é, basicamente, a arte de convencer pessoas a confiar em você quando, na verdade, estão em grande perigo se fizerem isso. Esta arte é usada por pessoas desde o golpista padrão de rua com o jogo de achar uma bolinha embaixo dos copos até grandes profissionais contratados por empresas para espionar outras empresas, frequentemente por enormes somas de dinheiro.

A arte é milenar e teve seus Beethovens e Mozarts, mas eis a história do homem que é considerado o Jimmy Hendrix da conversa fiada: Victor Lustig, que com 45 pseudônimos conhecidos e tendo evadido a prisão ou detenção quase 50 vezes é definitivamente o conde do óleo de peroba, tendo enganado, inclusive, Al Capone.

Não nasceu bandido: originário da atual República Tcheca e filho do prefeito da cidade de Hostigg, não tinha motivo para entrar no mundo do crime e era descrito como particularmente inteligente, embora sempre tivesse um talento pra se meter em problemas. Aos 19 anos começou a jogar poker e bilhar, e não muito tempo depois largou a escola e passou a cometer pequenas fraudes sob diferentes pseudônimos por toda a Europa.

Nos anos antecedentes a Primeira Guerra Mundial seu golpe favorito era viajar a bordo de grandes cruzeiros na rota Londres-NY e vender aos ricões do navio uma máquina de copiar dinheiro. Isso mesmo, por módicos 30 mil dólares (aproximadamente 250mil Obamas em dinheiro atual) o comprador adquiria uma caixa com vários mecanismos complexos que, a cada seis horas, era capaz de copiar uma nota de 100 dólares. Investimento bom, não fosse uma caixa preparada com duas ou três notas verdadeiras, o que daria a Victor cerca de 24 horas para sumir antes que percebessem que algo estava errado.

Certa vez Lustig foi preso em Oklahoma por outra fraude e, numa improvisação maestral, ofereceu ao xerife um “desconto especial” em sua maquina de copiar dinheiro: o xerife poderia comprar a maquina por uma bagatela de 10 mil dólares e deixaria Lustig sair livre. O xerife concordou, mas logo percebeu que tinha sido enganado e achou o golpista 8 meses depois em Chicago. Com uma arma apontada para seu rosto, Lustig conseguiu convencer o xerife de que ele havia operado a maquina incorretamente, e devolveu os 10 mil dólares para provar que era uma pessoa integra e ética. Pouco tempo depois o xerife foi preso por passar notas de 100 dólares falsas, obviamente originárias de Lustig.

Mas o cúmulo foi o golpe da Torre Eiffel. Lustig raciocinou que, sendo o ano de 1925, o governo francês ainda precisava pagar as enormes contas da guerra de sete anos antes, e dado que a Torre Eiffel jamais tinha sido planejada como uma construção permanente, poderia surgir a ideia de vende-la como sucata. Fingindo-se de oficial do governo, reuniu cinco donos de ferro-velho e simulou uma espécie de leilão, e num toque de classe. O “vencedor” suspeitou da coisa toda, mas Lustig então fez algo que o legitimou como oficial do governo: pediu um suborno. Tudo se acertou e o acordo foi concluído. A pobre vítima, quando descobriu tudo, ficou tão envergonhada que sequer contatou a polícia.

Um mês depois, como se não bastasse, Victor Lustig tentou o golpe de novo, e colou, só que dessa vez o enganado não teve vergonha nenhuma: foi a polícia e o caso caiu na imprensa, fazendo com que Lustig fugisse as pressas para os EUA.

Uma hora sua sorte acabou. Afim de investigar um enorme fluxo de notas falsas o Serviço Secreto americano montou uma força-tarefa para investigar o caso, e Lustig foi preso. Desafiador até o fim, escapou um dia antes do seu julgamento, muito embora sua prisão fosse considerada inescapável. Recapturado 30 dias depois, foi julgado e condenado a 15 anos em Alcatraz e mais 5 anos por seu truque de escapismo. Doze anos depois contraiu pneumonia e morreu.

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